Existem acontecimentos que nos mostram que a vida é uma enorme peça de teatro e que somos apenas espectadores. Na semana passada estava em um ônibus, indo para a labuta diária, pensando em minha vida, quando o veículo onde eu estava arou em um sinal vermelho no terminal urbano. Olhando para a janela vejo um senhor descendo a avenida de bicicleta, provavelmente também pensando em sua vida, quando o fato aconteceu. Ao desviar de um caminhão que estava em sua frente, a bicicleta invadiu a pista contraria e, neste momento, foi atropelada por um Fiat Uno. Este é o tipo de coisa que a gente pensa que acontece apenas em filmes. O corpo do pobre homem foi jogado uns cinco metros para frente, como se não tivesse peso algum. Bicicleta para um lado, corpo para o outro e alguns objetos pessoais levados em uma mochila espalhados por todo o asfalto. A partir deste momento se desenrolam os fatos que mais me chamaram a atenção. O dono do carro, como se tivesse água gelada nas veias, desceu do veículo e, primeiramente, foi verificar os danos no Fiat. Depois andou até o corpo, olhou para o mesmo, colocou as mãos na cintura e balançou a cabeça, como se pensasse: “droga, hoje vou chegar atrasado”. Dentro do ônibus alguns se acotovelavam para ver a cena, mulheres passavam mal e gritavam e, ao mesmo tempo, uns 42 celulares foram sacados para chamar o resgate. Depois de alguns toques, um policial atende do outro lado da linha. Após informar o ocorrido e dar o endereço do acidente a única pergunta feita pelo policial foi se o motorista que efetuou o atropelamento ainda estava no local. Nem uma pergunta sobre o ferido. Neste momento o sinal fica verde e o ônibus segue o seu caminho. Não sei o nome daquele senhor, nem se estava vivo, apenas segui o meu caminho e me esqueci dele até este momento. Um homem como eu, que tem R.G., CPF, um monte de preocupações e alguém que vai se preocupar quando ele não voltar para casa naquele dia. Ao que parece estamos perdendo a capacidade de nos comover com as mazelas do cotidiano. Estamos vivendo em um mundo onde é muito mais fácil depositar R$ 10,00 em uma conta para ajudar as pessoas que passam fome na África do que ajudar uma pessoa atropelada a alguns metros. E com isso seguimos nossas vidas, presos no mundo de nossas próprias preocupações, insensíveis as cenas que nos cercam.
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