Do sensual ao vulgar
Não consegui achar melhor definição para a prática do nu artístico do que essa. Por muito tempo pesquiso nas galerias dos grandes mestres inspiração para um dia produzir meu próprio ensaio artístico. E enfim o dia chegou. Nesse mês de setembro finalmente consegui agendar uma seção fotográfica para a produção desse esperado ensaio. Porém uma dúvida me cercava: como escapar da tênue fronteira que separa o artístico do vulgar, o sensual do pornográfico? Claro que minha principal fonte de pesquisa é a internet e me aprofundando dentro de sites artísticos e outros comerciais a quantidade de exemplos sobre o que não fazer é muito superior aos exemplos positivos. Minha amiga Magui sempre colocou seu forte posicionamento contra a exploração do corpo feminino pela sociedade machista, fato que concordo plenamente, mas a arte busca uma relação de beleza e simetria procurada desde a época das esculturas gregas e renascentistas e essa simetria é independente de ser em corpos femininos ou masculinos. Ao meu ver essa é a diferença entre a pornografia e arte.
E aqui entramos em outro problema um pouco mais tecnológico. O advento da fotografia digital tornou a profissão de fotógrafo muito atraente. As modernas máquinas digitais fazem praticamente todo o processo automaticamente a um custo muito inferior ao da época do filme, visto que eliminamos revelações, copiões e reproduções em papel. Qualquer um com uma Fuji S9000 ou uma Sony F828 se acha profissional e tenta ganhar uma grana com a fotografia sem nunca ter feito um curso ou entender minimamente de composição ou luz. O resultado são trabalhos medíocres e de péssimo gosto que são veiculados pela internet como se fossem profissionais. Mas, o maior problema é que esses pseudo-profissionais cobram muito barato pelo serviço, uma vez que não investem em qualidade, e jogam o preço de todo o mercado para baixo.
Fiquei completamente abismado com o que se anda fazendo dentro da área de nu feminino pela internet. Temos várias categorias nessa área: sites pornográficos (tipo Brasileirinhas), sites de acompanhantes, sites eróticos mantidos por grandes portais (Terra, Uol, IG), sites eróticos independentes, versões digitais de revistas impressas, galerias particulares de fotógrafos e revistas eletrônicas de pornografia e de sensualidade. Independente do tipo de público que essas publicações digitais queiram atingir eu como profissional da área fotográfica exijo um mínimo de comprometimento técnico com a imagem. Mas, o que encontramos (salvo raras exceções) são fotografias carregadas de clichês, mal produzidas, com problemas graves de iluminação, poses de gosto altamente duvidoso e situações que são hilárias. E dentro de tudo isso as produções passeiam dentro de dois extremos que são as fotos reconstruídas em photoshop, que não se sabe mais o que é realidade ou o que é produção digital, e as totalmente tosqueiras onde o fotógrafo não conseguiu nem regular direito sua câmera. Veja abaixo alguns exemplos positivos e negativos das categorias que eu citei.
Revista TRIP (Categoria Revista)
A revista TRIP mantém um site super bacana na internet. A publicação se caracteriza por fotos sensuais de modelos desconhecidas com produção quase artesanal. Existem vários ensaios disponibilizados na página e os principais, geralmente os de capa, possuem um pequeno vídeo making off mostrando como foi a produção e o clima entre equipe e modelo. Em muitos desses vídeos é possível ver que alguns ensaios ainda são feitos em filme e com câmeras mecânicas. As modelos nunca ficam totalmente nuas. É uma lance muito mais erótico do que pornográfico. Destaque para as matérias muito bacanas e o blog da revista.
Playboy (Categoria Revista)
A Playboy é a revista masculina mais famosa do Brasil e, qualitativamente, se destaca mais por suas matérias e entrevistas do que pelos ensaios fotográficos. O grande trunfo da publicação é ter modelos famosas em suas capas (geralmente atrizes globais). Porém, com toda a grana disponível para os ensaios o resultado chega a ser decepcionante. Cheio de clichês da própria revista e gosto duvidoso em alguns ângulos e poses. Geralmente a revista consegue produzir 1 bom ensaio por ano, sendo que o último digno de nota foi o da Fernanda Paes Leme (bela locação e belas fotos). A publicação se utiliza de quilos de Photoshop deixando as modelos com aparência de bonecas de cera. Tudo muito irreal. O site contém algumas fotos, mas a maioria do conteúdo é só para assinantes.
Sexymídia (Categoria Revista Digital)
o Sexymidia foi o pior site que encontrei na net. É uma revista eletrônica, mas que está se preparando para ir para as bancas em uma versão impressa. A revista é muito variada e tenta falar de muita coisa e, de lambuja, ter uns ensaios sensuais. Porém o sensual fica só na tentativa pois as produções são muito simples, com situações risíveis e modelos sem expressão nenhuma. É o tipo da modelo que quando está com raiva, medo, alegria e sono tem a mesma expressão. Os ensaios são basicamente feitos em motéis com uma péssima iluminação.
Gatas de Floripa (Site Erótico Independente)
O site é um exemplo do que vem acontecendo muito na net. Pela facilidade de se fotografar e montar um site (até eu estou montando um, hehe) qualquer um monta um site com mulher nua ou semi-nua e tanta faturar uma grana com patrocinadores. Esse ao que parece não deu certo pois desde setembro não tem atualizações. As fotos são estilo motel com modelos inexperientes, produção inexperiente e fotografo inexperiente e com equipamento amador. Já viu no que deu né?
MCLASS (Categoria acompanhantes)
Sites de acompanhantes estão proliferando como a família de um coelho tarado. A facilidade da internet e o relativo baixo custo para manter no ar o conteúdo tem mostrado que esse é um bom negócio. Até no interior essa atividade está em franco desenvolvimento. Existem sites bons e outros nem tanto. Esse MCLASS mostra modelos bonitas e uma boa produção fotográfica. Mas, infelizmente, o que chama a atenção nas fotos é a grande carga de photoshop usado nas imagens. Parece impossível, mas é pior que na Playboy. As menina parecem bonecas de plástico e látex. Essa é uma das coisas que me irritam muito.
Photografos (Galerias Particulares)
É uma galeria particular de fotógrafos. É como se fosse um fotolog, mas o sistema de hospedagem é muito mais refinado. Existe uma versão gratuitas, porém muito limitada. As melhores galerias são as pagas. Bom lugar para achar inspiração, pois as fotos não são produzidas para sites então não seguem nenhum padrão pré-estabelecidos. Apenas a sensibilidade dos fotógrafos.
Sei que esse post ficou um pouco longo e que existem muitos mais exemplos a serem citados, mas vou ficando por aqui. O tema é longo e possuí várias variáveis, porém o importante é que pensemos sobre isso. O nu como expressão artística existe desde o início de nossa história. Em alguns casos ele se caracteriza apenas como pornografia e exploração sexual, mas existe muita gente boa trabalhando com o tema e grandes obras já foram produzidas em cima da sensualidade. Por fim, negar nossa sensualidade e aquilo que nos agrada também é um crime perpetrado por correntes de pensamento conservadoras. Enquanto existir homens e mulheres que queiram expressar sua sensualidade e participar de um ensaio (por incrível que pareça existem muitas pessoas dispostas a isso) e artistas dispostos a materializar essa sensualidade a arte não vai morrer.
Conheça os grandes mestres da arte do nu artístico clicando aqui A primeira foto do post se chama Nude With Air Mattress e é de autoria do grande fotógrafo Helmut Newton









[…] A alguns meses atrás escrevi um post intitulado Do Sensual ao Vulgar. Nesse texto eu analisava as diferentes formas de representação da fotografia de nu na internet dentro de sites artísticos e pornográficos. Tal análise se deu por conta de um projeto particular onde desenvolvi um ensaio de nu dentro de padrões muito mais artísticos do que sensuais. Algum tempo depois recebi um e-mail de uma fotógrafa de Londrina, Mara Tkotz, que estava realizando uma especialização em fotografia na Faculdade Estadual daquela cidade. Conversamos pelo MSN algumas vezes, pois ela estava desenvolvendo o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) justamente dentro da área em que o texto se aventurava. […]