Rage – Speak of the Dead

A Alemanha é um país de origem germânica incrustado quase no centro da Europa. No passado, sua cultura militarista e expansionista causou muita dor de cabeça ao mundo gerando três conflitos de grandes proporções. Mas isso é passado. Hoje é um dos mais prósperos países da União Européia onde podemos encontrar muita cerveja, salsicha e Heavy Metal. Isso mesmo incauto leitor, talvez por um alinhamento inexplicável de planetas ou por um leve deslocamento do eixo de inclinação do planeta, as terras germânicas se tornaram um dos maiores celeiros de bandas de Heavy Metal da história. Precisaria de vários artigos só para listar tais bandas, mas hoje vou ficar apenas com uma cujo último lançamento chegou recentemente em minhas mãos, o Rage, uma de minhas bandas preferidas, mas que não dispõe no Brasil de uma popularidade igual a do Iron Maiden, por exemplo. Porém possuí uma base de fãs pequena, mas sólida em terras nacionais.

Criado no inicio dos anos 80, com o nome de Avenger, pelo vocalista, baixista, principal compositor e dono da banda, Peter “Peavy” Wagner, o grupo se beneficiou do boom inicial da New Wave of British Heavy Metal para consolidar o som praticado por seus integrantes. A Nova Onda do Heavy Metal Britânico (NWOBM), foi um movimento criado por um radialista britânico para divulgar novas bandas de Metal que estavam surgindo, visto que o cenário musical daquele país no início da década de 80 estava dominado pelo Punk. Com o tempo trocaram o nome para Rage e após o lançamento de vários discos sem muita repercussão o sucesso finalmente chegou com o lançamento do megaclássico Trapped (1992) e com seu sucessor The Missing Link (1993). O segredo para tamanho sucesso era um Metal muito rápido com refrões grudentos uma característica mais Hard Rock, que pegou em cheio o fã que gostava de Heavy Metal Melódico e os transformou em Semi-Deuses no Japão.

Depois do lançamento de alguns EPs aproveitando o sucesso desses dois álbuns, e talvez propiciado pela troca de alguns integrantes, o Rage sofreu sua primeira metamorfose com o álbum Black in Mind (1995) onde podemos ver uma banda muito mais pesada, chegando às vias do Trash Metal, mas não abrindo mão dos refrões grudentos. Porém, a surpresa desse disco é a música All This Time, baladinha com letra depressiva e onde era evidente a participação de vários violinos, dando uma idéia da metamorfose mais radical do grupo. Em 1996 sai Lingua Mortis o mais surpreendente e famoso disco do Rage. Nele, a banda recria algumas de suas antigas músicas com a participação da Orquestra Sinfônica de Praga. Deste momento em diante, a música da banda fica intimamente ligada com a música clássica, mostrando uma perfeita fusão entre os estilos. O álbum seguinte, intitulado simplesmente como XIII, é o disco menos pesado do Rage, mas também se tornou um grande sucesso, pois trazia músicas novas casadas com a proposta do Língua Mortis, uma perfeita comunhão entre música clássica e Heavy Metal. A partir de 1998, outras mudanças na formação da banda e na orientação musical, geraram alguns discos abaixo da média e parecia que o Rage estava fadado a ser apenas mais uma banda de Metal.

Mas, eis que eles ressurgem das cinzas e para a alegria dos fãs saudosistas o velho Rage esta de volta. Nesse novo disco intitulado Speak of the Dead (2006), a banda demonstra um primor de música pesada e clássica fundidos de maneira excepcional, levando em conta o bom gosto demonstrado pela trupe no passado.

O disco é dividido em duas partes. A primeira é a Suíte Lingua Mortis, com mais de 20 minutos de duração, dividida em oito partes e totalmente instrumental. Esse primeiro momento do disco conta com a participação crucial da Orquestra Filarmônica de Minsk, desenvolvendo um petardo musical juntamente com a banda. Isso é o que mais impressiona, pois a amálgama criada entre guitarras e os instrumentos clássicos em nenhum momento parece forçada. A primeira música da Suíte, Mortituri Te Salutante, já demonstra para o ouvinte que o que vai ser executado é algo épico e de grande impacto, mantendo esse clima por todos os outros sete movimentos.

Depois que terminam as músicas instrumentais, o que temos é a segunda parte do disco, com o Rage fazendo aquilo que faz melhor: Heavy Metal de boa qualidade. As músicas são rápidas e a bateria mostra muita coesão e evoluções muito interessantes, principalmente na técnica dos bumbos, cortesia do conceituado baterista Mike Terrana (que deixou a banda no início de 2007). Outro destaque é o timbre todo particular da voz de Peavy Wagner. Ele pode se orgulhar de ter uma voz que é reconhecida por qualquer fã, mesmo que nunca tenha ouvido a música que está sendo executada. Isso é um alívio dentro do mar de clones de André Mattos que temos por aí. Completando a banda temos o guitarrista e multi-instrumentista Victor Smolski, mostrando que um homem só pode fazer muito barulho. E por fim, parece incrível que tal massacre musical seja executado por apenas três indivíduos.

O disco está à venda no Brasil pela Nuclear Blast, mas quem se atrever a comprar a versão importada vai ter como bônus uma versão em alemão e espanhol da musica Full Moon, acrescentando mais 10 minutos de pura qualidade ao disco. Destaque para as músicas Innocent, No Regrets, Speak of the Dead, Full Moon, entre outras muito legais. A Nuclear Blast também lançou um clipe muito bacana para a música No Fear. Para quem gosta de Rage, eu me atrevo a dizer que é o melhor álbum da banda desde Trapped.

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