Dia Mundial do Meio Ambiente. E daí?

Dia 5 de junho comemoramos mais um Dia Mundial do Meio Ambiente. As TVs fizeram especiais, as escolas da rede pública fizeram atividades, muita gente plantou árvores e eu pergunto: e daí? Infelizmente, a população ainda não se deu conta do verdadeiro problema enfrentado e, por incrível que pareça, o problema existe porque nossa sociedade existe e, enquanto ela não mudar, vamos caminhar para nosso próprio fim. O desenvolvimento da ciência e nossa organização enquanto sociedade nos levaram a necessitar de muitos recursos naturais para nossa existência. O problema é que não consumimos o que necessitamos, pois somos levados pela mídia a desejar objetos e produtos que são dispensáveis à sobrevivência. Essa é uma característica que vai contra as leis naturais que levam todos os seres vivos a viverem em equilíbrio.

Somos bilhões de seres que necessitam comer, beber e consumir bens supérfluos. Não temos predadores naturais e não controlamos nosso crescimento populacional. Temos a idéia de que o planeta sempre vai suprir nossas necessidades e acreditamos que o governo vai tomar conta da situação quando necessário. Porém, esquecemos que, embora seres conscientes e racionais, não controlamos nosso destino. O que fazemos, queremos e desejamos está na mão de outras pessoas que possuem interesses e objetivos que não se alinham ao bem comum. Presos em nossa alienação continuamos a beber Coca-Cola e freqüentar o Shopping Center enquanto o pior está por vir.

O processo de industrialização da Europa se iniciou de maneira constante a partir de 1815. A primeira grande conferência sobre o meio ambiente foi realizada em Estocolmo em 1972. Dos quase 200 anos de industrialização começamos a nos preocupar nos últimos 35 anos. E nesse tempo não conseguimos realizar quase nada. Embora pequenas ações possam contribuir para conscientização da população, elas não interferem muito na questão global. Infelizmente só tomamos alguma atitude quando a situação chega perto do ponto de ruptura, como foi o caso da camada de ozônio. Nesses 35 anos fomos apenas capazes de criar o conceito de Desenvolvimento Sustentável, que parece uma palavra mágica, mas que na verdade não quer dizer nada. Não existe exploração sustentável em um sistema produtivo como o capitalismo.

Sustentabilidade é apenas uma forma de explorar sem desperdiçar, para que o recurso natural dure o máximo possível. Ao contrário do que os Eco-Chatos possam pensar, ninguém está preocupado com o respeito a natureza e o direito a vida das espécies animais e vegetais. Um exemplo interessante disso é o que eu chamo de Teoria do Ursinho Coala. Se um dia, por uma reviravolta da cultura, se tornar moda usar a pata do urso coala no pescoço, a ação sustentável para que todos tenham o direito de usar a pata do bichinho é criar o coala em cativeiro.Ninguém vai se preocupar se o coala tem direito a vida. A moda é mais importante e movimenta mais dinheiro do que qualquer atitude moral. Para ser sustentável a ação tem que ser economicamente viável (ninguém investe dinheiro sem retorno), ambientalmente equilibrada (explorar racionalmente para durar mais) e socialmente justa (tem que dar retorno econômico para a população local).

O Aquecimento Global é o próximo vilão. Muitos pintam um cenário cataclísmico para o próximo século. Infelizmente, tudo o que acontece é apenas conseqüência de nossa sociedade. Toda vez que compramos uma lata de refrigerante, ligamos nosso carro ou assistimos TV, estamos colocando mais uma contribuição a equação da destruição. E o pior é que só vamos tomar uma atitude quanto devastações globais começarem a acontecer. Se a solução para um problema ambiental levar a uma quebra no padrão de consumo da população as pessoas geralmente são contra. Parece radical de minha parte afirmar isso? Pois lembrem-se da crise do apagão. Embora com todos os problemas políticos envolvidos a crise era, em sua essência, uma questão ambiental. O que aconteceu foi uma chuva de processos para que o nível de consumo de energia fosse mantido. Ninguém quis fazer sua parte para superar um problema coletivo. O governo que se vire.

Pense nisso na próxima vez que for ao mercado.

update 014/2007: Tem post novo no fotoerotica. Conham o trabalho de Allan I. Teger e da Equipe Ellas.

5 Responses to “Dia Mundial do Meio Ambiente. E daí?”

  1. Gilson
    Este post está excelente!
    Quando eu for gente grande espero poder escrever como você cara!
    Parabéns pelo texto! :P

  2. Muito bom Gilson, seu ponto de vista de Sustentabilidade eu acrescentaria que nem um “explorar sem desperdiçar” seria possível, de toda maneira o dano acontecerá e nunca mais poderá ser revertido. Estamos certamente caminhando para um final tenebroso. Abraço.

  3. Pior que Gilson, a gente vê essa situação e não há como reverter. Só tentar apaziguar o tempo. Abs

  4. Acredito que a conscientização vem em pequenos passos.

    No caso do apagão, fomos obrigados a mudar nossos padrões de consumo de uma hora para a outra, foi irritante e, para piorar, custou caros aos nossos bolsos - quem ultrapassava a faixa de consumo pagava uma nota. Daí terem chovido processos - a maior parte deles, alegando que o encargo de capacidade emergencial, que atingia o bolso, era ilegal.

    Por outro lado, muita gente reviu seus hábitos. Eu passei a usar lâmapadas econômicas, e não voltei atrás depois da crise. No meu trabalho, foram instalados interruptores em cada sala (acredite, não existiam), que são apagados quando o último funcionário vai para casa.

    A gente via mudando pequenos hábitos, convencendo um ou outro e, no fim das contas, o meio ambiente ganha uma sobrevida.

  5. Infelizmente, Lu, a conscientização das pessoas é apenas uma pequena pedrinha no problema todo. Quem determina o futuro ambiental são as grandes empresas e os políticos. Enquanto não acontecer uma catostrofe de ambito global a mentalidade dos depredadores não vai mudar. O que interessa é o lucro e o desenvolvimento econômico. Infelizmente o custo da recuperação ambiental vai ser nosso mesmo, afinal de contas, somos nós que consumimos os recursos naturais, mesmo que inconscientemente, ajudamos, e muito, a destruição do meio.

    As ações para mudança de consciência apenas nos alertam para o perigo, mas enquanto não cobrarmos das empresas que trabalhem de maneira correta nada vai mudar. E isso vai implicar em queda no padrão de consumo. Toda medida para deter um impacto ambiental é emergencial, poucos se preocupam com um problema ainda por vir. O Brasil está a beira de um novo apagão elétrico. A iniciativa do governo é construir mais hidreletricas, mas não existe nenhuma campanha de economia de energia planejada para o próximo ano.

    Agora começa a cobrança pelo uso da água no Estado de São Paulo. A medida visa a recuperação dos manânciais que estão em estado crítico. Muita gente vai ser contra e argumentar que isso é encargo do governo. Mas, é o esgoto dessas mesmas pessoas que poluí os rios. Essa é uma briga que vai durar para sempre.

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