Mais um rumo para a Educação Paulista

O governo José Serra está preparando mais uma “revolução” no sistema público de ensino do Estado de São Paulo. A partir de 2008 todo aluno do 3º ciclo do Ensino Médio vai ser convidado a fazer uma escolha entre cursar o ciclo normal e se preparar para o vestibular, ou cursar um curso técnico na área de Administração e Gestão. A proposta é que a sala voltada para o Ensino Técnico tenha 06 horas semanais de disciplinas especificas, ou seja, um dos cinco dias da semana. A proposta não foi muito bem explicada ainda, mas tudo vai funcionar dentro do esquema do Telecurso TEC, que é uma parceria entre a Fundação Roberto Marinho e o Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza.
Na prática, o que será montado nas escolas públicas é uma Tele Sala para que o curso seja ministrado via programas educativos. Cada sala vai ter um professor Tutor, que vai orientar os alunos dentro das atividades pedidas durante o curso. Juntamente a isso existe um livro didático que é oferecido pelo preço de R$ 60,00 (ainda não sabemos se o Estado vai bancar o material para os alunos ou se cada um tem que se virar com o seu). Ao fim de cada módulo o aluno tem que fazer uma prova para demonstrar seus conhecimentos. Muita coisa ainda não foi muito bem explicada. Por exemplo, quais disciplinas do ensino médio normal vão sofrer cortes de carga horária para que as disciplinas específicas sejam encaixadas. Outra duvida é sobre a qualificação que esses alunos vão obter ao final do curso. Há alguns anos, em outra parceria com o Centro Paula Souza, a Secretaria de Educação de São Paulo bancou o projeto chamado Programa Profissão. Pelo projeto os alunos concluintes do Ensino Médio cursariam mais um ano de ensino técnico. Porém, durante esse um ano não se atingia a carga horária básica para um diploma de ensino técnico. Os alunos saiam com uma qualificação de auxiliar, que na prática não servia para absolutamente nada.
Para quem não conhece, o Telecurso TEC é uma iniciativa nos mesmos moldes do Telecurso 2º Grau. Para participar o aluno tem que escolher entre as modalidades Presencial (onde o aluno se dirige a uma das tele salas montadas e conta com a presença de um professor orientador), Aberta (onde o aluno assiste os programas que são exibidos pela Rede Globo, TV Futura ou TV Cultura e depois faz as provas) e On-Line (que vai estar disponível a partir de 2008, onde serão organizadas turmas de educação a distância com orientações através do site do programa). Os cursos oferecidos até o momento são Administração Empresarial, Secretariado e Gestão de Pequenas Empresas. Esses cursos foram escolhidos, segundo o Centro Paula Souza, por terem grande procura na época dos Vestibulinhos e por apresentarem uma taxa de empregabilidade da ordem de 77% dos alunos concluintes. Os cursos tem uma carga horária de 800 horas divididas em três módulos. Independente da modalidade escolhida, todas as provas são presenciais, sendo que nesse fim de semana vai se realizar a primeira avaliação do sistema.
A meu ver, qualquer iniciativa para melhoria do ensino e da oportunidade de emprego para o jovem que está saindo da escola, e que não tem o curso superior como opção, é bem vinda. Mas, eu sempre achei que deveríamos consertar primeiro o que está estragado para depois implementar melhorias. O ensino público paulista, e do Brasil inteiro também, está quebrado. E não são pontos isolados e sim todo o sistema. Temos professores mal preparados e sem incentivo, alunos que não ligam para o que estão fazendo pois sabem que a aprovação é garantida, Universidades que oferecem cursos de magistério que não mantêm um mínimo de qualidade e, coroando tudo isso, temos políticas públicas que favorecem e incentivam esse circulo vicioso. Quando pegamos os gráficos de acesso a escola e número de aprovações tudo é positivo. Mas, o resultado de avaliações como o ENEM nos mostram que o abismo é negro. Infelizmente, os resultados do ENEM são mostrados através das médias, que mascaram muito a realidade, mas mesmo esses resultados demonstram que alunos do 3º Ensino Médio não conseguem fazer uma prova que é, basicamente, de interpretação de texto.
Agora nos resta esperar e ver no que isso vai dar.
Veja o site do Telecurso Tec.

November 27th, 2007 at 10:10 am
Por exemplo, quais disciplinas do ensino médio normal vão sofrer cortes de carga horária para que as disciplinas específicas sejam encaixadas.
Qualquer outra que não seja Português e Matemática, eu voto em Geografia, História e Filosofia (se ainda tiver)
Eu sou contra estes cursos técnicos, acho completamente errado você formar mão de obra (barata ou não), ao invés de formar um cidadão capaz de criar suas possibilidades profissionais. É exatamente aquela história da corrida dos ratos, o estado precisa desse bando de gente calada, não pensante e conformada correndo sabe-se lá para onde com o objetivo de continuar enriquecendo cada vez mais um único nicho da sociedade, aquele que paga altos impostos.
Este tipo de posição é muito radical? ou o mundo é perfeito e o Estado só quer ajudar os pobres coitados?
November 27th, 2007 at 10:58 am
Concordo com você. Trabalho no sistema e sei como as coisas funcionam. Um monte de burocrata fica em São Paulo tendo umas idéias que todo mundo sabe que são ridículas, enquanto atacar o problema verdadeiro chega a ser heresia. Não sou contra o ensino profissionalizante nas escolas do ensino médio. Seria uma relação dialética. Mesmo que servisse aos designios do Estado em obter mão de obra barata, pelo menos seria uma oportunidade de emprego para quem não tem a faculdade como opção. Falo isso porque até para trampo de peão de obra hoje em dia é pedida alguma qualificação. Por conta da falta de emprego se o cara pode exigir pessoas com qualificação para trabalhos manuais, por que ele pegaria alguém sem qualificação?? Mas, como provou o Programa Profissão (que consumiu muita grana do Estado), esse tipo de coisa acaba não dando certo.
November 28th, 2007 at 9:18 pm
Creio que primeiro tem que melhorar a educação básica(existem crianças na 4ª e 5 ª série que mal sabem ler), devido a política de passar de ano sem o aluno ter aprendido nada(talvez apenas para entrar em estatísticas e mascarar o resultado do idh, ou mostrar para a ONU), uma outra curiosidade, a prova do ENEM foi mais fácil esse ano? pois misteriosamente a média nacional subiu de 35 dos anos anteriores para 50 sem nenhuma mudança no sistema de ensino…
November 29th, 2007 at 11:12 am
Fábio, infelizmente não posso falar pelos anos anteriores, mas a prova desse ano foi muito fácil. Quase toda em forma de interpretação de texto. Posso afirmar isso pois fui uma das pessoas que fizeram a prova.