Um casamento no inferno

Ser fotógrafo tem suas compensações. Ninguém fica rico na profissão, mas é possível ganhar uns trocos com uma atividade prazerosa e ainda ver muita coisa bacana. Porém, tem certas ocasiões que fazem você pensar em desistir da profissão. Uma dessas ocasiões aconteceu durante a cobertura fotográfica de um casamento. Esse é o tipo de atividade que geralmente já é cansativa e estressante, mas nessa situação em particular tudo deu errado. Pensei muito antes de escrever esse texto. Poderia pegar mal com os clientes, mas acho que a história merece ser contada e, de qualquer forma, nada foi culpa dos noivos ou da família. Foram apenas uma corrente de situações enervantes.
O casamento foi marcado para um sábado às 18:00H do outro lado da cidade. A informação é que a recepção seria ali perto da igreja, então não me preocupei em ir de carro, preferindo pegar o bom e velho transporte coletivo (isso mesmo, fui de ônibus, pois a cobertura do casamento era parte de um projeto social que faço parte, então festa pequena e equipamento básico). Por conta de minha ansiedade em relação a compromissos cheguei uma hora antes do combinado. As 18:15H ninguém tinha aparecido ainda para abrir a igreja. Fiquei preocupado que talvez estivesse no lugar errado, mas logo apareceu uma senhora que tinha por incumbência preparar o recinto, e não estava nada feliz com isso. Nos 15 minutos em que estive com ela fiquei sabendo de todos os podres dos habitantes da paróquia, dos noivos, da família dos noivos e até da cabeleireira que tinha um salão em frente a igreja. Já estava com vontade de bater na velhinha quando o noivo chegou e fui tomar conta de minha obrigação.
Ao montar o equipamento notei que um filete de suor começava a escorrer de minha cabeça. Olhei em volta e notei que a igreja era abafada e não tinha nenhum ventilador ligado. Fui perguntar para a senhora que sabia da vida de todo mundo quando os ventiladores iam ser ligados. Ela me avisou que não ia ligar porque tinha ordens do padre para economizar energia. Pensei que era brincadeira, mas nada de ventilador durante toda a cerimônia. Quando os 22 pares de padrinhos entraram eu já parecia uma cachoeira. Depois que a noiva entrou (aliás, devo dizer que muito bonita) a organizadora do casamento estava surtando perto da porta porque o rapaz responsável pela música estava errando todas as entradas. Aliás, ultimamente casamento está parecendo musical da Rede Globo, com várias intervenções de vários estilos diferentes.
Depois que tudo já tinha dado errado vem o sermão do padre que, sinceramente, foi a coisa mais sem emoção que vi em minha vida. Uma historiazinha sem pé nem cabeça que só demonstra como a igreja católica ainda está atrasada em termos de cativar o público. Depois que terminou sua obrigação o padre não levou nem 2 minutos para se trocar e estar no seu carro. Provavelmente tinha que casar mais alguém nesse dia ainda. Depois de todas as fotos obrigatórias o pai do noivo chega para mim e diz que a festa foi mudada para um salão a quilômetros dali. Agradeci o aviso com um sorriso que não deve ter sido muito espontânea, pois notei um leve desconforto da parte dele. Corri para o ponto de ônibus e calculei tudo. Tinha que pegar duas conduções e talvez não chegasse muito atrasado.
Depois de uma hora de trajeto ao entrar no salão me deparei com a visão do inferno. Ao que parece todos os convidados eram adeptos da cultura dos bailes Funk (isso no interior de São Paulo), e a festa já estava pegando fogo (se é que me entendem). Fiquei surpreso de saber que os noivos ainda não tinham chegado. Eles haviam se perdido e chegaram quase uma hora depois. Nesse momento a coisa já estava fora de controle. Devia haver umas 30 crianças sem camisa correndo como loucas pelo salão e usando garrafas de Tubaína Funada (coisa do interior) como espadas. Tentei fazer as fotos obrigatórias o mais rápido possível. Depois de esperar todo mundo comer o churrasco veio a parte do bolo. Quando falei para fazermos as fotos do bolo aquelas 30 crianças sem camisa se amontoaram ao lado do mesmo e começaram a passar o dedo na cobertura. Perdi a calma e comecei a expulsar todo mundo.
Depois de doutrinar as crianças os noivos assumiram a sua posição e poderíamos cortar o bolo. Isso se não tivessem esquecido de trazer a faca para cortar o bolo. Depois de vinte minutos procurando algo para cortar o bolo encontraram uma velha faca de plástico de cor amarela, igual aquelas que vinham nos rocamboles de antigamente. Pensei comigo que aquilo ficaria muito feio, mas estava querendo ir embora logo, então não falei nada. No momento em que fui fotografar o corte do bolo uma criança me empurrou e a tampa da minha lente caiu no glacê. Na hora não notei e quando puxei a máquina (a tampa fica amarrada na objetiva) a mesma se soltou e grudou em minha camisa. Ao que parece ninguém notou aquilo e fui de fininho para o banheiro para me limpar. Não sei do que era feito aquele bolo, mas o glacê não saiu nem com água e detergente. Ao provar um pouco se parecia muito com plástico industrial. Quando retornei todos estavam preocupados porque também tinham esquecido os pratinhos para o bolo. Nem liguei, pois não era um dos momentos obrigatórios.
Agora, para o fim do meu martírio só faltava a noiva jogar o buquê. Depois de mais uma hora nada disso acontecer. Cheguei nela e perguntei quando ela jogaria as flores para a galera. Ela me disse que estava indecisa porque o arranjo era muito bonito e ela queria guardar. Olhei para a mão dela e vi um amontoado de flores artificiais simples, porém simpático. Deu vontade de botar fogo naquilo. Uma hora depois ela decidiu jogar o buquê porque as meninas que estavam dançando Funk estavam cobrando dela. Depois do buquê, que era a última obrigação, vinha a parte mais chata. Agora era a hora de enfrentar o bando de parentes levemente alcoolizados que querem tirar fotos com os noivos ou até mesmo sem os noivos. Essas são fotos perdidas. O indivíduo não vai comprar elas porque nem vai se lembrar do ocorrido e o noivo não é louco de colocar essas imagens no álbum. Mas, se você se recusa em fazer as fotos tem o perigo de passar por chato, e fotógrafo vive de indicação. Várias fotos de homens babando depois consegui finalmente fugir do local.
Ser fotógrafo tem uns momentos muito compensadores, mas outros que fazem você pensar em vender o equipamento e mudar para Cuba.
UpDate 002/2008 – Por conta de conselho de meu amigo Kadu o penúltimo parágrafo foi editado, pois o mesmo estava muito agressivo.
Caro amigo Gilson, isto é osso do oficio, mas este trabalho foi ilario, como diz o ditado “A gente ganha pouco mas se diverti”….
bjs
Hehehe, ainda bem que saiu vivo.
Já vi festas deste jeito.
Definitivamente isso tudo que você relatou é mentira, e ainda tenho argumentos pra provar isso:
* Paróquia pobre pra não ligar o ventilador (aqui tem igreja com aqueles jatos de vaporzim e uma até com ar condicionado!)
* Músicas erradas na entrada da noiva;
* Mudança do local da festa de última hora;
* Noivos se perderam pra chegar na festa;
* Não tinha faca pra cortar o bolo;
* Não tinha “pratinho” pra comer o bolo;
* Não tinha o buquê reserva pra jogar pras malditas e guardar o lindão!
E aqui está a prova de que tudo isso é mentira:
“…a organizadora do casamento estava surtando perto da porta…”
A culpa de toda essa desgraça seria dessa maldita, claro, se tudo isso fosse verdade
PS. O que grudou em você não foi glacê, aquilo é pasta americana, que na realidade não deve ser comido, é só pra enfeitar o bolo, devendo ser desprezado no prato, há malucos que comam!
Se as pessoas tivessem um pouquinho mais de senso de ridículo, 99% das festas de casamento não aconteceriam.
E pior são os dvds que os amigos nos obrigam a assitir depois
.
concordo com o noronha, os filmes de casamento são acontecimentos bem mais desgraçados que o evento em si… acredite se quiser, uma tia da minha mãe casou e agora está fazendo outra festa para rolar o dvd =)
ps. ficou bem menos agressive agora…
uahauha.. muito bom.. me parti de tanto rir (desgraça alheia é engraçada…) =D
Parabéns pelo blog… muito bom!
hahahahahahahahahaha…
ahuiahuiaha
rachei o bico muito boa!
Hahahahaha…
Ri muito aqui (rir da desgraça dos outros…), mas já fui em um casamento assim – como convidado – vi que a festa seria uma bost@, nem fiquei, agora eu sei do que eu me livrei.
Minha nossa senhora, que desgraça foi seu dia amigo, ri tanto, que chorei, santa mãe de Deus, meu próximo periodo na faculdade é de fotografia, amo fotografar, mas que bom saber desses lados ruins, faço publicidade e propaganda e pensei em fazer fotografia,mas sinceramente acho que vou ter somente 1 semestre mesmo, melhor ficar no meu curso de publicidade, rsrsrsrsrs.
Te desejop muita boa sorte em seus próximos trabalhos.
Hauahauahuahau, tô rindo até agora.