Fui convidado pelo Bion a participar hoje de uma blogagem coletiva contra o analfabetismo. Em 2003 o MEC divulgou uma pesquisa que mostrava que o Brasil possuía 16 milhões de analfabetos e que metade desse número estava concentrado em cerca de 10% dos municípios do país, ou seja, existem alguns poucos lugares em nosso país onde se concentram a maior parte de pessoas que não sabem ler e nem escrever. Incrível que em pleno século XXI, o mesmo século que foi alardeado por diversos filmes de ficção científica como um século de grandes avanços tecnológicos, nosso país ainda padeça de um problema típico da época medieval. Na Europa da época das trevas, manter o povo ignorante e sem acesso a escrita era uma forma de dominação. Infelizmente, isso se mantém até hoje. Privar uma pessoa do acesso a informação a torna dependente de que outras pessoas o façam por ela. É nesse ponto que se desenvolve a dominação política e social.

É nesse momento que alguns podem falar que estou vendo mais uma conspiração política, mas os fatos são inegáveis. Vamos tomar, por exemplo, o sistema educacional do Estado de São Paulo, visto como o mais rico e poderoso estado da federação. É inegável que grande parte dos alunos sai do Ensino Médio um analfabeto funcional. O que é isso?? É aquela pessoa que sabe ler e escrever minimamente, mas não consegue entender o sentido das palavras. Claro que também não podemos generalizar para todas as escolas, pois as provas do ENEM mostram que muitos alunos de escolas públicas conseguem bons resultados na avaliação, mas a situação tende a piorar por conta de alguns fatores:

- o sistema de progressão continuada veio para resolver o problema das repetências em massa. Alunos que repetiam vários anos acabavam desistindo da escola. Mas, agora o que temos é a aprovação automática. Ninguém mais repete de ano e também não aprende. Dentro das Diretorias de Ensino a ordem é que o aluno tem que ser promovido e o professor que se vire para que o aluno atinja o nível exigido para seguir em frente;

- Claro que os alunos perceberam que isso está acontecendo e não dão mais importância para os estudos. Muitos deles não possuem perspectiva de tentar entrar em uma faculdade e, portanto, encaram a escola apenas como um castigo que dura alguns anos;

- os pais não se preocupam mais com seus filhos. Claro que não estou falando de todos os pais, mas as escolas de periferias funcionam como depósitos de crianças e adolescentes. Os pais querem apenas um lugar onde seus filhos possam ficar enquanto trabalham. A preocupação com qualidade não está em primeiro lugar e já que seu filho não repete de ano as coisas vão sempre seguindo da mesma maneira;

- professores estão desmotivados. Afinal de contas o sistema é uma piada. Ele ensinando ou não o aluno vai ser promovido e o salário dele vai pingar na conta todo mês. Professores com desempenho fraco não são avaliados e, mesmo com reclamações, são mantidos no cargo por conta da estabilidade do funcionalismo público;

- O estado de São Paulo criou, para os funcionários e professores do sistema de ensino, uma bonificação no final do ano. Como o Estado é obrigado por lei a aplicar um percentual fixo da arrecadação na educação e nunca atinge essa meta, ele distribuí o dinheiro que sobrou no final do ano e da em forma de bônus para os professores. O bônus não é fixo e varia de escola para escola. O critério para calcular esse prêmio é relacionado ao número de aprovações nas escolas. Se a escola teve muitas repetências o bônus é menor. Ou seja, apenas uma forma de motivar os professores a manter a mesma política de aprovação automática;

- As péssimas universidades particulares em funcionamento no país estão formando professores sem a mínima capacidade de enfrentar uma sala de aula. Essas verdadeiras fábricas de diplomas não exigem conhecimento e nem que o aluno assista às aulas. Se as mensalidades estiverem em dia já é motivo suficiente para conferir o grau de licenciado para alunos que mal sabem escrever ou ler. Dessa maneira o ciclo vai se fechando ainda mais;

Trabalho no sistema de ensino paulista desde 1997 (quase 11 anos) e sou categórico em afirmar que o problema é político e não estrutural. Hoje as escolas (pelo menos uma grande parcela) possuem equipamentos modernos na parte de áudio visual e de informática. O que falta é vontade política para que tudo seja aplicado de forma satisfatória. Falta uma política séria de ensino para que as crianças aprendam a pensar e não apenas a desenhar letras. É preciso um governante comprometido com o desenvolvimento social dos jovens para que esses possam compreender sua situação e assim formar objetivos em suas vidas. Também precisamos de um expurgo dos péssimos profissionais da educação. Ser professor não é apenas uma profissão, exige grande carga de idealismo.

O melhor recado que podemos dar a esses governantes que não se importam com essa situação é reprovando sua conduta nas urnas. Exercendo nosso direito de dizer não a políticas enganosas de ensino. Mas, será que a população consegue enxergar essa realidade??

update 009/2008 – Como bem explicado nos comentários abaixo as idealizadoras dessa blogagem coletiva são a Georgia do Saia Justa e a Meire do Meiroca.

Também estão participando da blogagem coletiva os blogs abaixo:

Abigobaldo, Abiose, Adao Braga, Adelino, ADesenhar, Adri, Alealb, Alê, Aline D, Allan, Alice, Amigos da Blogosfera, Ana C, Ana C. Zumpano, Ana Laura D, Andrea Motta, Aninha Pontes, Anny, Antonia Y, Aru’, Bárbara Matias,Bárbara M.P,Bel, Bel 2, Bete, Bia, BionRJ, Blogosfera Solidaria, Blue R, Bruna P., C. Antonio, Canha,Carla B, Carla T, Carolina, Carol R, Ce Junior, Celia, Celia Malmqvist, Célia Rodrigues, Celia Santos, Chicoelho, Cidao, Cilene Bonfim, Claudia Campos, Claudia Clarke, Claudia Pit, Clausia, Crispassinato, Christiani R, Cristiane A., Cybele M., Cris Penaforte, Cris Santos, Crys, Danda, Daiana, Daniela, Debora, Denise BC., D. Afonso XX, o Chato, Doni, Drops Azul Aniss, Du, Edilene Mora, Eduardo, Eduardo W., Efeneto, Ela, Elaine, Ernani M, Elena, Elisabete C, Elisangela, Elvira Villani, Fabio A, Fabio Mayer, Fátima F, Fátima R, Fernanda, Fernanda J., Fernando Cals, Fernando Z., Flainando na Web, Flavia M, Flavio V., Frodo, Georgia, Gi, Gilson, GuGa, Guillian, Hairon A,Hebert D., Henry Felippe , Ingrid, Iza, Jandira S, Jan T., Jessica M, Joao Bosco, Joao Maria, Julio M., Jussara, Kall, Karine Leao, Krika, Laura, Leniß, Leo, Leonardo, Leonor Cordeiro, Leticia Coelho, Lili Bettina, Lili Faz sua parte, Lilian Britto, Lino Resende, Lis, Liz, Loba, Lola, Lou, Lu, Lucas, Lu Cavichioli, Luci100, Luci Lacey, Lucia Freitas, Lucia, Luiz R, Luiz Ramos, Lulu, Luma, Lunna F., Lunna, Lusinha, Luiz, Luiza Helena, Luiz Valério, LysFigueiredo, Manu, Marcelo, Marcelo M, Marcia F, Marcos, Marcos Santos, Marcos V. Maria Augusta , Maria Fernanda, Marilac, Mario, Marlene Mora, Marta Ribeiro, Mayna Nabuco, Meire, Mi, Michel Q., Milla,Miriam Salles, Motivacao, Nadia, Nadja, Naldy, Nanci Natalia, Nando D, Nina, Oscar, Ozeca, Pablo Ramos, Paloma, Patti, Paulo, Paola Madrid Sartoretto, Paulinha, P-Paulinha, Pedro Freire, Pri, Prof° Cristiana P, Prof° Josenilton, R., Radio Santa Cruz, Rap, Renata, René, Ricardo, Ricardo Rayol, Ricardo Soares, Rober P, Roberta, Roberto B, Rogério B, Ronald, Rosa, Rosacea, Rosana, Rosane , Roseli V, R Petterson, Sandrinha, Scliar, Saramar, Semíramis A, Sérgio C, Sergio Issamu, Sergio F, Sergio Nascimento, Simone L., Sonia H., Sonia Regly, Suellen N, Suelly Marquez, Taliesin, Tamara, Tanya, Tata, Tina, Veneza A. Babicsak, Veridiana, V. Carlos, Vi Leardi, Vinícius, Vitória, Vivi, Vivi Amorim, Viviane B, Vó Heda, William, Xico Lopes, Zel, você.