Semana passada finalmente fui assistir ao tão falado novo filme do Batman. Não iria escrever nada sobre a película, pois muito já foi escrito sobre o assunto e esse seria apenas mais um texto, mas fui levado a traçar essas linhas por conta de um post no blog do Neto Cury. The Dark Kinght é um grande filme, mas não é fenomenal. Infelizmente não saí do cinema com a sensação que outros filmes de heróis me causaram nesse ano. Aquela de que se tinha passado por uma experiência fantástica nas duas horas anteriores. Talvez o problema tenha sido a expectativa. Tanto se falou e escreveu sobre a grandiosidade da produção que eu estava esperando algo que rompesse as barreiras do cinema e se tornasse um clássico absoluto. Já comprovei por experiência própria que filmes que assisto sem expectativa se tornam muito mais prazerosos, como no caso de Hitman, onde não conhecia o personagem e nunca tive contato com o jogo que deu origem a produção. Foi um filme divertido e que valeu cada centavo do ingresso. Porém, com Batman é diferente.

Além de todo marketing viral, da morte de um dos protagonistas em um duvidoso erro de ingestão de medicamentos e de toda a babação de ovo da mídia especializada, existe outro fato que torna o filme uma obra simplista para mim: sou um fã aficionado dos quadrinhos do homem morcego. Em toda minha infância e adolescência, existiram dois personagens de quadrinhos que são obrigatórios. O primeiro é o Super-Homem e o segundo, claro, é o Batman. Querendo ou não, esses dois seres representam a raiz primária de todos os super-heróis. Um é o represente perfeito dos poderes super humanos, e o outro é o ápice do desenvolvimento físico e intelectual do corpo humano. Claro que entendo a dificuldade de se adaptar uma obra de quadrinhos para o cinema. Afinal de contas, como condensar, em algumas horas, décadas de desenvolvimento psicológico dos personagens sem agredir o fã dos quadrinhos e tornar tudo compreensível para quem nunca leu a revista? É quase impossível, mas Dark kinight chegou perto.

Em primeiro lugar, quem não assistiu ao primeiro filme da nova franquia, Batman Begins, já entra perdendo no cinema. Batman é um personagem complicado e no primeiro filme tentou-se explicar um pouco de sua complexa psicologia. Antes de mais nada, Bruce Wayne é um indivíduo obcecado pela justiça. O crime deve ser punido e a promessa que fez a seus pais de levar essa justiça aos infratores da lei é o que move seus atos (igual ao Homem Aranha em relação ao seu tio). Para tanto, ele passou anos percorrendo o mundo aprimorando tanto a mente quanto o corpo, se tornando o guerreiro perfeito. O que muitos não entendem é que Batman não é o personagem, ele é o verdadeiro Bruce, enquanto o milionário é o uma farsa criada para proteger seus objetivos.

O que mais me deixou chateado no filme é o destaque dado a parte violenta do personagem. Talvez, em tempos modernos essa seja a característica que mais tenha vendagem, mas Batman, assim como o Super-Homem, é guiado por um código moral que não permite a morte (coisas de história em quadrinhos). Nessa mesma linha, o lado racional do personagem foi, quase totalmente, esquecido. Batman, também é conhecido como o maior detetive do mundo e em poucos momentos vemos o lado racional e investigativo do personagem. E esse é o motivo que fez do Coringa seu maior inimigo. Ambos são inteligentes, porém um é um maníaco homicida psicótico, e o outro é o exemplo do raciocínio lógico, embora ambos possam ser encarados como loucos por um observador comum. Os vários momentos em que Batman perde a calma do filme são um retrato negativo do personagem dos quadrinhos.

Tirando essas pequenas ressalvas, o filme é muito interessante. Embora o Coringa seja um ótimo personagem, livre das amarras do racionalismo, dar muita atenção para ele, em detrimento do personagem principal, é uma técnica que também funcionou com o primeiro filme dirigido por Tim Burton. É muito mais fácil dar asas a um personagem maluco do que aprofundar as características de um personagem mais complicado. Não nego que Heath Ledger seja um ótimo ator, mas as intervenções de seu Coringa tomam a maior parte do filme e as melhores cenas. O que sobra para Chistian Bale é ser um vingador calado, violento e sem profundidade. Outra coisa que me deixou muito triste foi o desperdício do Duas Caras. Harvey Dent (Aaron Eckhart, em uma atuação fenomenal) é um dos inimigos da galeria principal do Morcegão. Nesse filme foi usado para encher lingüiça e dar um final meia boca para a trama narrativa. Poderia muito bem ter sido apenas um gancho para o próximo filme.

Finalizando, é um bom filme, mas nem a metade do que andam dizendo por ai. O que temos é um marketing muito bem construído e o fato de Heath Ledger ter morrido precocemente antes do lançamento do filme (olha ai o ganhador do próximo Oscar de Melhor Ator Coadjuvante). Não é o melhor filme do ano e também não é o melhor filme sobre histórias em quadrinhos. Os dois filmes de Tim Burton, embora abordassem o lado cartunesco do personagem, estão no mesmo nível dessa produção.

Para se aprofundar realmente na psicologia do personagem e conhecer um pouco melhor a relação de Batman com o Coringa eu recomendo assistir o desenho animado A Mascara do Fantasma, e ler as edições especiais Asilo Arkan, A Piada Mortal, A Morte de Robin e a minissérie O Cavaleiro das Trevas (aqui o Coringa não aparece, mas é uma aula de como fazer quadrinhos e, sem dúvida nenhuma, a melhor história escrita para o personagem)