Alguns meses atrás, o Centro Paula Souza, entidade que gerencia o ensino técnico de nível médio e superior no estado de São Paulo, anunciou, depois de vários anos de enrolação, o seu tão falado Plano de Carreira para o funcionalismo. Tudo bem que a proposta só saiu para esvaziar uma greve que ameaçava parar todas as unidades da autarquia, mas alguns acharam a proposta interessante e outros acharam horrível.
Porém, o que me leva a escrever esse texto é um desabafo que encontrei em um dos jornais sindicais dos funcionários do Centro. Antes do plano de carreira existia o cargo de Oficial Administrativo, um tipo de Secretário de Escola, e que passou a se chamar Auxiliar Administrativo. Achei a mudança interessante, pois a palavra Oficial sempre me pareceu um resquício da ditadura militar. Porém, um outro cargo chamado Atendente de Classe, que seria o equivalente ao Inspetor de Alunos da Secretaria de Educação, também foi enquadrado como Auxiliar Administrativo. Atividades diferentes, mas que visam o suporte a atividade de ensino e aprendizagem em níveis diferentes e igualmente importantes. Pelo menos eu entendo dessa maneira.
No referido jornal sindical, que não vou citar para não ficar feio, um ex-Oficial Administrativo estava se queixando que sua categoria foi rebaixada pelo fato de agora serem Auxiliares e de que os antigos Atendentes de Classe (que ganhavam menos) terem sido elevados ao mesmo nível deles. Se bem entendi, o individuo não estava protestando contra o fato de que o Plano de Carreira foi uma bomba e de que a luta por melhores condições de trabalho e remuneração deveria continuar. Ele estava protestando contra o fato de que agora ele vai ter que tratar como igual alguém que, para ele, era inferior na escala administrativa. Sou só eu ou alguém mais achou isso ridículo?
Claro que os argumentos que ele colocou foram da escolaridade. O último concurso para essas funções aconteceram há 10 anos. Nessa época o Oficial Administrativo deveria ter o Segundo Grau completo (atual Ensino Médio) e o Atendente de Classe apenas o Primeiro Grau (atual Ensino Fundamental). Em certo momento do texto ele pergunta se os antigos Atendentes vão ter competência para executar o serviço dele. Como se digitar cadastros de alunos e fazer arquivamento de pastas fosse a coisa mais difícil do mundo. Claro que não entro no mérito das competências, mas no fato do protesto ser apenas focado no individualismo e na depreciação do outro. Em nenhum momento foi defendido o funcionalismo como um todo. E isso, em um veiculo de comunicação sindical, deveria ser regra.
Fico imaginando o que os primeiros Movimentos Sindicalistas, que conseguiram conquistas a base de lutas, sacrifícios e sangue, pensariam desse individuo. Penso mais longe ainda. Marx (aquele barbudo que a galera só volta a ler em tempos de crise do capitalismo) quando escreveu o Capital e pensou em seu Manifesto Comunista, crivou a noção de que uma classe é formada por indivíduos com os mesmos objetivos e, por isso, uma mesma luta. Tudo isso foi vencido pelo individualismo. Cada um quer pensar apenas no seu lado e que se dane o coletivo, mesmo que seja apenas o coletivo que tem forças para lutar contra o sistema.
A luta acabou e que venham a alienação e o profundo sono da Matrix. Eu lavo minhas mãos. Vou parar de sofrer e tomar minha Coca-Cola ouvindo meu I-pod.
Realmente, esse negócio de “ter poder” é uma coisa ridícula e que assombra muitas empresas no Brasil.
Aproveitando a deixa, vc tem alguma e-mail? Queria lhe fazer uma pergunta e não achei nenhum e-mail seu perdido por aqui!
o mvimento sindical ainda é muito corporativista, salvo raras exeções, quando suas ligações com governos não fazem lutar contra a categoria, como por varias vezes acontece na fasubra por exemplo.
Achei interessante seu ponto de vista e concordo que é ridículo um empregado tratar o outro com inferioridade, seja qual for o nível hierárquico…
Mas um ponto de vista o qual não deve ser esquecido é o seguinte:
1º- um concurso de Ensino Médio é mais difícil do que um de Ensino Fundamental, por isso, é natural que quem passe no primeiro queira reconhecimento, independente de comparações;
2º- Trabalhei com uma pessoa que exercia o cargo de Oficial Administrativo, quando ocorreram essas mudanças. Essa pessoa, por exemplo, tinha uma doença nos ossos, o que permitia que ela exercesse o papel de Oficial Administrativo, mas não o de Atendente de Classe. Quando aconteceu a união entre os dois cargos, essa pessoa foi solicitada a trabalhar como “inspetora de alunos” (é importante dizer que o governo não estuda cada caso), assim, foi obrigada a deixar o cargo.
Você não considera importante estas observações?
Gabriela, sim eu considero importante essas colocações, mas, o fato é que, em vez de ficarem chorando pelo ocorrido com o seu cargo, os funcionários do Paula Souza deveriam executar uma luta conjunta pelos seus direitos. A classe é totalmente desunida e merece tudo o que de ruim acontecer. Quem sabe assim o pessoal não acorda e passa a ver que somente com o trabalho conjunto é que alguma mudança positiva pode acontecer. Quanto ao caso do seu amigo, eu acho muito esquisito. Embora as duas funções tenham sido fundidas, cada um tem sua atribuição. O fato do Atendente de Classe ser agora também um Auxiliar Administrativo que vai tornar ele qualificado para trabalhar na secretaria, e vice-versa. Desvio de função dentro do Estado só é valida se o funcionário concordar com ela. Se o concurso feito foi para trabalho na secretaria, o seu amigo poderia pleitear continuar no seu local e aé entrar na justiça para manter seus direitos. O poder público nunca pensa em nosso bem, se queremos algo, temos que lutar.