Ano passado, quando o Governo do Estado de São Paulo anunciou que iria subsidiar a aquisição de notebooks para professores em 24 parcelas sem juros, pensei que era uma ótima idéia. O professor teria acesso a um equipamento que se tornaria uma ótima ferramenta para o aperfeiçoamento da formação de seu aluno. Segundo minha mente utópica, o próximo passo seria a instalação de redes wireless em todas as escolas, possibilitando que o docente acesse a internet para mostrar algum exemplo ou responder alguma dúvida mais complexa durante a aula. Mas, após a chegada dos primeiros computadores aqui na escola tive que voltar a crua realidade. A maioria dos professores não está preparada para encarar a educação como uma atividade séria.

O primeiro ponto é a questão do equipamento. Cada máquina está saindo por R$ 1700,00 (aproximadamente) divididas em 24 vezes sem juros pelo banco Nossa Caixa. As configurações são ótimas, proporcionando uma máquina rápida, mesmo rodando o Windows Vista. As primeiras 10 mil máquinas que foram entregues são da linha antiga da Positivo, com o acabamento em Black Piano. Provavelmente uma raspa do antigo estoque. As próximas que chegaram já eram da linha nova que está à venda atualmente nas lojas. Já começou um choro porque uns são mais bonitos que os outros.

Logo depois, o pessoal começou a reclamar que o preço estava muito alto e que era possível encontrar equipamentos nas grandes lojas pelo mesmo preço. Ninguém coloca na balança que as grandes lojas não dividem o computador em 24 vezes sem juros e que o sistema operacional é o Linux e não o Windows Vista Home original. As pessoas que deveriam ensinar valores para nossas crianças não conseguem identificar que o sistema operacional é um produto e possuí um valor de mercado.

E por último, e muito mais grave, é que poucos (eu diria em torno de 10%) entenderam que aquilo que o governo estava propiciando para eles é uma ferramenta para o ensino e não apenas mais um brinquedo. Alguns deram o computador para os filhos acessarem o Orkut (achei isso o máximo da falta de noção) e outros (pasmem) venderam o equipamento para terceiros, transformando a transação em um empréstimo. São essas coisas que me trazem vergonha em trabalhar em uma escola.

Mas, o problema é muito mais profundo. De um lado temos professores que enxergam a educação apenas como mais uma atividade chata e mal remunerada. Infelizmente, meus amigos, para ensinar tem que ter um pouco de idealismo. Afinal de contas, a formação de mentes jovens estão em suas mãos. Ser um mau professor é ser um assassino de mentes. Depois não adianta ficar reclamando que os alunos não tem educação. Parte da culpa é sua, que não tem preparo para lidar com eles. Talvez esses sejam os primeiros reflexos das péssimas Universidades particulares que formam docentes em regime de linha de produção. Já visitei algumas dessas Universidades e o que vi me deu nojo.

Do outro lado temos as políticas ridículas do governo do estado. Um amigo já me disse que o Estado sempre tem duas opções: a certa e a errada. Por incrível que pareça, ele sempre escolhe a errada. Oferecer tecnologia para os professores é como dar um carro para uma criança de 10 anos. Ela não tem a mínima idéia do que fazer com aquilo e em algum momento vai dar merda. Essa é a idéia distorcida dos nossos governantes sobre a tal inclusão digital. O notebook deveria vir amarrado a um rígido programa de capacitação. Vamos financiar a máquina, mas o professor tem que se comprometer a tornar-se um profissional melhor. Alguns aqui não sabiam nem ligar o computador. Como esse professor vai se utilizar da ferramenta para ensinar se nem ele sabe o que fazer??

Problemas normais em nossa rede de ensino. Muito equipamento e boas oportunidades sem a menor noção de como usá-los. A impressão que temos é que a Secretaria de Educação faz isso de propósito para manter a grande massa burra e os professores alienados. Se bem que eu não duvidaria disso.