“Alguns anjos não aceitaram a elevação do homem acima deles e se levantaram contra os exércitos do Arcanjo Miguel causando uma segunda guerra no céu”
No distante ano de 1995 essa foi a premissa de um filme que me fez a cabeça. Por conta da elevação do homem acima de toda a criação com o sacrifício de Jesus Cristo, alguns anjos no céu se revoltaram com a perspectiva de serem rebaixados e levantaram armas contra os exércitos leais a Deus e comandados pelo Arcanjo Miguel. Do lado revoltoso, o comando coube ao poderoso e sarcástico Arcanjo Gabriel que, mesmo tendo arrastado metade dos seres celestes para sua pequena rebelião, não conseguia derrotar os anjos leais. O impasse já durava milênios até que Gabriel decidiu se utilizar de um humano para comandar seus exércitos já que os Macacos Falantes (forma desdenhosa com que os rebelados tratavam a humanidade) sabem mais de guerra e traição do que qualquer anjo.
O filme, que saiu no Brasil direto em fita VHS (os mais jovens conhecem isso?) era um exemplo fiel de filme cult. A imagem e o som não tinham muita qualidade, o argumento apresentava alguns exageros e também tivemos uma mescla de atores competentes com alguns dos piores atores de apoio da história do cinema, mas por alguma razão esse pequeno clássico underground fez muito sucesso entre os admiradores de um cinema alternativo. Eu não tenho duvidas de que esse sucesso se deve a presença quase onipotente de Christopher Walken. O ator interpreta o Arcanjo Gabriel com sua habitual competência empregando ao personagem uma grande dose de cinismo, arrogância e crueldade. A película ainda rendeu mais dois filmes tendo Christopher Walken com presença garantida em todos eles. Mas, temos que ser justos. A parte boa do elenco de apoio também proporcionou a ele um bom espaço para trabalhar o seu personagem.
No primeiro filme (The Prophecy, 1995) – Gabriel vem a Terra para procurar a alma mais negra entre os humanos para comandar seus exércitos rumo a vitória. Mas, Simão (Eric Stoltz), um anjo da facção leal a Deus chega primeiro e esconde a alma. Agora, cabe ao policial e ex-seminarista Thomas Dagget (Elias Koteas) e Katherine (Virginia Madsen) lutar contra Gabriel e impedir que ele transforme o Céu em outro Inferno. Para tanto eles vão contar com a ajuda do próprio Lúcifer (Viggo Mortensen) que vê uma chance de se vingar de um dos Arcanjos que o baniu do Céu e evitar a concorrência
Em 1998 tivemos a continuação da história (The Prophecy II) onde tudo ficou muito mais profissional. A história estava mais enxuta e o roteiro não tinha tantos furos. Até o elenco de apoio melhorou muito. Aqui, logo no começo, temos uma das partes mais bacanas do filme. Lúcifer caminha por um estacionamento abandonado e abre uma fissura no chão diretamente até o inferno para libertar Gabriel, que tinha sido levado para lá no final do primeiro filme. Junto a isso ele profere a frase “o Inferno é pequeno demais para nós dois”. Ao ser libertado, Gabriel volta imediatamente para a batalha que está ocorrendo e fica sabendo que os Anjos leais receberam uma profecia de que um Nefelin seria gerado e ele colocaria fim a batalha entre os Anjos. Durante todo o filme Gabriel persegue Valerie Rosales (Jennifer Beals), que foi escolhida para ser a mãe do Nefelin. Na história ainda temos o Arcanjo Miguel (Eric Roberts) e de Izzy (a finada Brittany Murphy) como ajudante de Gabriel, pois como ele mesmo diz, ele transforma cidades em sal e reis em aleijados, mas não sabe dirigir um carro. Ao final, o Anjo renegado é castigado por Deus por sua rebelião e é transformado naquilo que mais odeia, um ser humano.
Quando todos pensavam que a história tinha acabado, em 2000 chega ao mercado de vídeo (nunca nos cinemas) o terceiro episódio da saga (The Phophecy III: The Ascent, 2000). Aqui ficamos sabendo que o Nefelin Danyel (Dave Buzzotta) cresceu e não conhece sua natureza divina. Gabriel, agora um simples humano, sempre está por perto e, ao que parece, começou a entender a natureza humana. Porém, Zophael (Vincent Spano) chega a Terra com duas missões. Tentar matar o menino e acordar Pyriel (Scott Cleverdon) o Anjo adormecido do apocalipse. É nesse ponto que ficamos sabendo que a guerra no céu continuou mesmo sem o seu líder, pois os Anjos ficaram com medo de sofrer o mesmo castigo se baixassem suas armas. Ao final, apenas o Nefelin pode combater o poderoso Anjo do Apocalipse. Esse filme fecha o ciclo iniciado com o primeiro, pois Gabriel se mostra regenerado de seus pecados ao entender novamente os desejos de Deus e, como recompensa, volta a ser um Arcanjo.
Infelizmente é muito difícil encontrar qualquer um desses filmes para comprar. Os dois primeiros foram lançados em DVD, mas o terceiro somente pode ser encontrado em VHS. Mas, para quem tiver a oportunidade, é um bom entretenimento. Ao fim, fazendo um balanço da história, vemos que o importante aqui não são as batalhas e sim uma mensagem de fé.