Esse está sendo um ano atípico. Chuvas muito fortes estão castigando a região sudeste provocando prejuízos, destruição e morte, principalmente da população mais humilde que reside nas periferias. Aqui poderíamos entrar em uma enorme discussão sobre a falta de infra estrutura ou como os governos não ligam muito para o que acontece com as classes menos favorecidas (a não ser em época de eleição, é claro). Ou ainda, poderíamos adquirir um discurso eco-chato e culpar o aquecimento global, o sistema capitalista, os Estados Unidos e o Coelhinho da Páscoa. Mas, vamos analisar os fatos de maneira sóbria.

Um evento de chuva devastadora não é padrão para dizer que o aquecimento global está afetando alguma coisa em nosso clima. Os estudos climáticos se baseiam em observações em grandes escalas de tempo, e não em apenas uma década. O clima só passou a ser estudado de forma séria e sistemática há pouco mais de um século, então existem fenômenos que podem acontecer a cada 10 anos e outros que acontecem todos os anos. Então, se um eco-chato aparecer com o discurso de que a culpa é do aquecimento global, lhe aconselhe algum livro sobre estudos climáticos. Claro que ele não vai ler, pois prefere utilizar idéias decoradas de outras pessoas, mas você terá feito sua parte para salvar uma alma da ignorância.

O segundo grave problema, que não tem nada a ver com a vontade de São Pedro, está ligado ao poder público, mas não da maneira que ele vem sendo cobrado. Permitir que pessoas construíssem residências em várzeas de rios, locais que normalmente são as áreas de inundação e em bases ou topos de morros é uma irresponsabilidade e até mesmo um ato criminoso. Não existe obra de infra-estrutura que de conta de contornar a força da natureza nesses casos. O próprio fato da impermeabilização do solo urbano (outro fator que tem que ser revisto urgentemente) maximiza a velocidade e quantidade de água que chegam até os rios. Como eles inevitavelmente já estão canalizados na zona urbana e nunca é levado em conta o aumento de volume durante as chuvas, eles vão transbordar.

Outro dia, estava vendo uma entrevista com uma moradora de São Paulo dizendo que faz 10 anos que ela mora em um bairro que todo ano inunda e a Prefeitura nunca faz nada. Infelizmente minha amiga, existe pouca coisa que a Prefeitura pode fazer, pois você mora em um local que não devia estar habitado. O próprio hotel em Angra dos Reis que acabou sendo protagonista da tragédia da virada do ano estava construído em um local no mínimo duvidoso. Antes que me joguem pedras, não estou isentando o Poder Público de responsabilidade. O que estou dizendo é que falta planejamento no crescimento de quase todas as cidades do Brasil. E a única coisa que fazemos com competência é regularizar o que já foi feito errado e continuar perpetrando a falta de visão e habilidade dos nossos governantes.

Planejar o espaço e ocupá-lo sem levar em conta a dinâmica da natureza é, historicamente, um erro grotesco. Ainda o estamos cometendo. Não adianta culpar São Pedro depois e nem os vilões do aquecimento global.